- Eugênia, prestenção nesse jogo!
- Não quero, só vejo jogo do Fluminense. Não gosto de ver sem torcer pra ninguém.
Eu gosto de futebol, e gosto muito. Meu problema com o futebol é que eu gosto muito mais do que entendo. Não sei a escalação da seleção de não sei que ano. Eu só sei que em 1952 meu avô jogou no Atlético mineiro e que um pouco antes disso, era a estrela do Bangu. Não sei todas as regras, e por mais que eu conheça todo o discurso do que raios é um impedimento, eu só consigo identifica-lo quando o Arnaldo me conta.
Pênalti eu sei quando é.
Faltas também, ainda que ache que alguns empurrões deveriam ser permitidos. Gente fresca. Mas eu to lá, na frente da TV, todo jogo do Fluminense. Ou do Cruzeiro. Ou do Tupi.
Meu avô me fez passar muitos fins de semana nessa vida assistindo futebol. Dos times “do estrangeiro”, como ele diria, devia torcer pelo Barça. Descendente de catalão, ele odeia o Real Madrid. Não sou muito de torcer, porque odeio perder. Do tipo que quando perco, fico de mau humor no fim do jogo, xingo o juiz, a mãe do juiz, a mãe de todo mundo.
Eu só torço pro Fluminense. E pro Tupi. E desde 2009, pelo Chelsea.
Quando morei em Londres, tinha um “amigo” que era Chelsea doente. Morávamos a dois quarteirões da sede do Chelsea, lá no bairro Fulham. E por vários outros motivos passei a acompanhar os jogos do time, em vários pubs abarrotados de gente. Uma gente apaixonada e amedrontadora, preciso dizer. Eles ficam bravos quando perdem um gol. Mais bravos do que eu.
Aprendi a curtir quase tudo o que é inglês, logo, aprendi a curtir o Chelsea.
Aí fiquei sabendo que depois da maravilha de jogo que Barcelona e Chelsea protagonizaram na sessão da tarde, alguns dias atrás, a Globo repetiria a dose... Certeza que acompanharia de novo.
E o jogo foi do Chelsea, maravilha.
Sentada do meu lado, com a cabeça no meu ombro, minha irmã caçula jogava um daqueles vídeo games portáteis, e eu fui obrigada a desliga-lo, ordenando que prestasse atenção no jogão que viria pela frente. Sem essa porcaria de “futebol arte”. Era um grande jogo, sem dúvida, fosse artístico ou não.
- Eugênia, você sabe quem é esse Messi?
- Não é aquele que joga melhor que o Neymar?
- Isso mesmo. Tá vendo como o jogo tá bom. Ó, esse Daniel Alves é brasileiro. Caramba, Barcelona joga muito.
- Duh, eu sei que o Daniel Alves é brasileiro... Didi, pra que time cê tá torcendo?
- Ai, Gena... o Barcelona joga muito, mas eu simpatizo mesmo é com o Chelsea.
- Então tá decidido, to torcendo pro Barcelona.
E ela levantou da cama nos dois gols do Barcelona, e me mandou parar de gritar com o primeiro gol do Chelsea. Quando eu disse que o gol foi do Ramirez, que também era brasileiro, ela perguntou por que é que ele não jogava na seleção. Coitada, não pude dar respostas...
Terry saiu e eu xinguei. Idiota.
Geninha perguntou se ainda dava pro Chelsea, eu disse que não.
- Ganhar do Barcelona já é difícil, imagina ganhar do Barcelona com um a menos. Impossível Manolo, impossível.
- Tá, já entendi que o Barcelona joga muito.
Aqueles que procuravam por “futebol arte”, talvez tenham perdido um precioso tempo na tarde de terça. O segundo tempo, jogado inteiramente no campo do time inglês, foi uma chuva de tentativas frustradas de encontrar o espaço atrás de Cech. Cech (gracinha), por sinal, que foi brilhante durante todo o jogo. Assim como Meireles, Drogba, sem esquecer Ramirez, é claro. Todo o time inglês esteve brilhante. Não por jogar muito, mas por jogar com muita, muita vontade. Nunca vi um time segurar tanto gol. Tava lindo de ver.
Com a entrada de Torres, alguns trataram di Matteo como louco.
Eu não, não entendo nada de futebol mesmo.
Mas eu sabia que Torres sabia correr, mesmo sem saber marcar adversários. O que não diminuiu a felicidade ao ver o incrível gol que o espanhol marcou. Coisa linda.
-Pô, Didi, que gol maneiro!
- Ué, cê num tava torcendo pro Barcelona?
- Eu tava... Mas esse gol foi bonito pra caralho, até a Meleca (a poodle) curtiu.
- Olha a boca, menina!
E quando o jogo acabou eu me lembrei de quando era nova, e via o Fluminense perder. É que a sensação de ontem foi pura demais, forte demais, só me lembrou das derrotas do Fluminense. Um futebol que sem categoria exacerbada, encheu a TV. E encheu a tarde de quem o assistiu. Um jogo cheio de haters gritando no twitter. Um jogo que, mesmo que por alguns lances, fez uma criança viciada em joguinhos largar o aparelho modernoso.
Um jogo ganho pelo menor time, que derrubou um mito, e conquistou mais uma fã.
Geninha, a caçula, jamais torcerá pelo Barcelona outra vez.